| Fernando Vita escreve carta a leitores, livreiros, imprensa e a quem mais interessar possa. E, respeitosamente, pede passagem. | Caras e Caros, Preclaras e Preclaros, Amigas e Amigos, e até Inimigas e Inimigos, caso eu os tenha e ainda não o saiba. A ideia de escrever 1964: O Golpe, o Capitão e o Pum do Maestro, que tem como subtítulo Uma história de fardados, desfardados, aluados e assemelhados, numa pequena cidade do Recôncavo da Bahia, quando tudo se deu, persegue o meu juízo há muito tempo. Diria mesmo que ela vem de antes da escrita de alguns dos meus cinco romances anteriores. E 1964 chega agora tão somente graças à persistência perdigueira com que a ideia de escrevê-lo apoquentava a minha cabeça, de forma abusivamente obsessiva, ano após ano. A Geração Editorial, ao publicá-lo, traz para mim, ao mesmo tempo, o aval crítico com que os seus editores trataram a obra e a sensação de dever cumprido perante a memória do que vivi em tempos únicos, e sombrios, do Brasil. E se 1964 vem a público, cumpre dizer que, se há culpados, aponto os dois principais. O primeiro deles, o grude na minha memória das lembranças do menino, do que ele viu, ouviu ou leu sobre o golpe militar que subtraiu dos brasileiros vinte e um anos de democracia, em troca de uma rude, parva, cruel e sanguinária ditadura: os dias que o antecederam, aqueloutro em que ele se deu, os tempos tenebrosos e plúmbeos que se seguiram. E o segundo culpado, os anos que o Brasil viveu, de 2018 até 2022, quando a Democracia brasileira mais uma vez se viu ameaçada, perigou deveras sucumbir, naufragar, sob a força de um novo golpe, este, bem vivo ainda cá, em todas as lembranças, esquecer, quem há de? Verossimilhanças entre um e outro? Que a História as dirima e registre. O que faço neste 1964: O Golpe, o Capitão e o Pum do Maestro é narrar, com o bom humor possível, como ele se deu na minha imaginária Todavia, uma pequena cidade do Recôncavo da Bahia, com a porção hilária própria às quarteladas brasileiras, notadamente sob os olhos e o escrutínio dos que vivem nos cantos mais esconsos do Brasil mais profundo. E ainda mais: no 1964 do século passado, tempos em que no Brasil as telecomunicações mal engatinhavam, a televisão também e as pessoas só sabiam das coisas por escutar no rádio ou por ouvir dizer. Arrisco a compartilhar com vocês a Sinopse do 1964, que chegou à Geração como uma espécie de “Comissão de Frente”, abrindo alas ao manuscrito do romance. Primeiro que ela, o título do livro se impôs, soberano, antes mesmo que eu parisse as suas primeiras linhas, tanto a ideia de escrevê-lo me perseguia. E ela resume, em poucas linhas, o que 1964 narra em suas 312 páginas. | Ei-la: “Todavia, cidade imaginária do Recôncavo da Bahia, primeiros anos da década de sessenta do século passado. Um atarracado capitão do Exército brasileiro, aparência meio oblonga, tez morena, olhos aquosos e inexpressivos quase sempre protegidos dos sóis inclementes dos dias por um par de óculos Ray-Ban, de nome pomposo, o militar – Ludovico César Roldão Ramos Neto – e porte igual, desembarca no trem do meio-dia na estação da mais que centenária Estrada de Ferro Nazaré. É recebido com pompa e circunstância pelas mais altas autoridades locais e notabilidades outras, além do assim dito povo em geral, com direito a discursos, retreta de filarmônica, espoucar de foguetes nos ares e ademanes tais, tão comuns em recepções iguais, notadamente em pequenos burgos dos mais profundos dos Brasis profundos. E logo, todos os pouco mais de dez mil habitantes de Todavia, onde é célebre a prática do disse me disse e profícua a atividade dos leva-e-traz, ficam a saber a que veio o Capitão Ludovico: criar o primeiro Tiro de Guerra da região, o TG115, eis a sua missão. E mais: tão rapidamente quanto tenta o militar impor a sua autoridade turrona, a cobrar de uns e outros continências, subserviências, favores, bandeiras hasteadas em permanente vigília cívica e rapapés de igual monta, toda a sua vida pregressa, marcada, na caserna ou fora dela, por um emaranhado de insólitos e tragicômicos episódios, é esquadrinhada e vira arroz de festa na boca do povo. É neste universo ficcional divertidamente provinciano, intensamente picaresco e erótico, nos anos política e ideologicamente turbulentos que antecedem o Golpe Militar de 1964, com o Capitão Ludovico a ver, em cada canto, em cada esquina da prosaica Todavia, comunistas e inimigos outros da Pátria a conspirar contra ela, a querer tomar o poder, sempre a soldo do “Ouro de Moscou”. Na ocorrência do Golpe em si mesmo e nos dias medonhos que se seguem, em Todavia e até fora dela, na Cidade da Bahia e no resto do Brasil, que o autor constrói o seu sexto romance para a Geração Editorial, depois de Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela (2006); Cartas Anônimas (2011); O avião de Noé (2016); República dos Mentecaptos (2019) e Desirée, a sexóloga que não sabia amar (2021). E o faz com o bom humor, inventividade e até com a dose certa de surrealismo fantástico, em pitadas soltas na trama, que caracterizam todos os livros, que, à exceção do primeiro, têm sempre como cena a sua mítica e muito louca Todavia. Da qualidade da escrita do autor, marca registrada sua por seu estilo e verve únicos, que falem os que já se deliciaram com as suas histórias, caprichosamente bem urdidas e contadas. Em livros ou fora deles. Então, preparem-se para dar boas risadas com este 1964: O Golpe, o Capitão e o Pum do Maestro, porque rir é ainda o melhor remédio. Mesmo quando se está a tratar de antigas tragédias. Ou tragicomédias. E principalmente quando o Brasil, nos tempos de agora, quase as replica, perigou mesmo as bisar até, sob a ardilosa inspiração e a batuta de um outro capitão tão parvo, tosco e aluado quanto o Ludovico que um dia chegou a Todavia.” | Da minha parte cumpre esperar que o prometido na Sinopse do 1964: o Golpe, o Capitão e o Pum do Maestro corresponda ao tanto quanto do livro esperam os seus leitores. Se isto não se der, e que os Santos e Orixás da Bahia me poupem do dissabor, a culpa é toda minha. Eximo dela, totalmente, todos os da Geração, talentosos como sempre, generosos por demais, que se juntaram ao autor para botar o 1964 nas ruas. | SOBRE O AUTOR Fernando Vita nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 22 de dezembro de 1948. Lá iniciou os seus estudos. Mudou-se em 1965 para Salvador e em 1973 formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Iniciou sua vida profissional no extinto Jornal da Bahia, onde foi repórter, editor e crítico musical. Foi repórter da sucursal baiana do Correio da Manhã e freelance do Jornal do Brasil e das revistas Veja e Istoé/Senhor. Nos anos oitenta escreveu crônicas semanais para o jornal A Tarde e para o semanário Pasquim. Em 2006, com o romance Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela, Vita recebeu o Prêmio Braskem Cultura e Arte e teve o seu primeiro livro publicado pelo selo Casa de Palavras, da Fundação Casa de Jorge Amado. Pela Geração Editorial, lançou em 2011 Cartas Anônimas, uma hilariante história de intrigas, paixão e morte; em 2016, O Avião de Noé, uma hilariante história de inventores, impostores, escritores e outros malucos de modo geral; em 2019, República dos mentecaptos, uma hilariante história de mandriões, cortesãs, espertalhões e certos valdevinos de modo geral e em 2021, Desirée, a sexóloga que não sabia amar, uma hilariante história de rufiões, garanhões, putanheiros, sacanas e mentirosos de modo geral. | TRECHO DO LIVRO ...contudo, naqueles anos sessenta já idos, em Todavia, muito pouco se sabia a respeito do atarracado capitão do assim tido como “o glorioso Exército brasileiro”, um elemento de aparência meio oblonga, tez morena, olhos aquosos e inexpressivos, quase sempre protegidos dos sóis inclementes dos dias por um par de óculos Ray Ban, cabelos à moda da caserna, castanhos e escorridos sobre uma cabeça basta quando proporcionada ao saldo restante do corpo, braços e pernas curtos, estes em desacordo com o volume do tronco e com a proeminência da barriga, andar decidido e ares de salvador da Pátria; sim, pouco se sabia das antecedências do fardado, todo empacotado em uniforme verde-oliva, parcas medalhas e alamares, quepe vistoso ao cocuruto que o trem do meio do dia acabara de desovar na estação da mais que centenária Estrada de Ferro Nazaré, só que ele tinha por prenome Ludovico, capitão Ludovico, e que se deem por bastante informados, por enquanto, os leitores e os pouco mais que onze mil moradores da cidadezinha do Recôncavo da Bahia, uma gente desimportante e mal-ajambrada, mais afeita a rezar em missas, a cantar loas aos santos de barro ou pau oco em procissões, a chorar lágrimas de fancaria em velórios, a acompanhar enterros e, em momentos diversos e muitos, a escrever cartas anônimas e a lhes dar destino, nas sombras das madrugadas, aos breus das portas, de ordinário com o norte de destruir reputações, pôr abaixo respeitabilidades solidamente adquiridas, destrinchar amores clandestinos ou encubados, levar às cloacas vidas até então imaculadas; sabiam um pouco mais do recém-chegado, no entanto, apenas o prefeito Antônio Magalhães Braga, o AMB, uma meia grosa de autoridades menos autorizadas da cidade, o monsenhor Giuseppe Galvani, pároco da Matriz, não mais que tanto; nem mesmo o sabia o nonagenário maestro Sóter Barros, um amulatado varapau de quase meia légua de altura distando da base dos pés à carapinha de raros fios de cabelo, ali a reger a augusta Sociedade Philarmônica Amantes da Lyra em retumbante tocata da marcha militar que diz em letra e música que nós somos da Pátria a guarda, fiéis soldados, por ela amados, muito menos os seus dissonantes saxofonistas, clarinetistas, tubistas, trombonistas, trompetistas, bombistas, pratistas, caixaclaristas, oboístas e outros assopradores de instrumentos ou batedores de tambores variados; assim, só à luz do empolado discurso de boas-vindas proferido pelo alcaide, soube-se que o Capitão Ludovico, de logo com as graças da sua patente e a sua própria postas em iniciais maiúsculas, quiçá todas as duas em caixa-alta, como, por jeito de ser, sempre subservientes a todos e a tudo que vem de fora, os todavienses se apressaram a grafar, chegara para implantar o primeiro Tiro de Guerra de toda a região, o TG115 de sigla e número, urgia proteger a segurança pátria naquele pedaço de chão, ainda que à custa do próprio sangue, da própria vida, sob a força das armas e a coragem cívica de recrutas a serem incorporados ali e acolá, assim aclarou, em rápidas palavras, ditas em tom vibrato e encorpado, muito próprio aos que dão ordens unidas em quartéis, o Capitão Ludovico, que de bate pronto já se perfilava e estranhava a falta, a um mastro, ainda que improvisado, do “auriverde pendão da esperança, símbolo augusto da paz”, mas exigia, peremptório, que dali por diante se lhe prestassem continências todos os viventes de Todavia, não importando a cor, a raça, o credo, o sexo, a idade ou quaisquer outros diferenciais que teimam em ousar distinguir os humanos, sim, que todos lhe prestassem continências, mesmo quando, por acaso, ele estivesse à paisana; e como rege a norma, um sempre manda para que muitos obedeçam, o prefeito AMB foi o primeiro a espalmar a mão direita à testa suada, juntar os pezinhos calçados a Vulcabrás lustrosos, bater sonoramente os calcanhares e fazê-lo; na sequência, retirado da cabeça o solidéu, fez o mesmo o monsenhor Galvani, seguido o de batina pelos demais presentes, consta que até os musicistas da Amantes da Lyra depuseram seus instrumentos ao chão da rampa de desembarque e fizeram igual, menos o maestro Sóter, contumaz anarquista de origem, que se aproveitou do trololó e do blábláblá do momento para, pouco notado, mas anotado por poucos, pôr a sua batuta de reger filarmônicas amparada no sovaco esquerdo e, com as vastas mãos, assemelhadas a duas folhas de caladium, hábeis em escrever dobrados e polcas e valsinhas em partituras pautadas e clavadas em sóis e dós e lás, endereçar uma solene banana de braço na rota do milico recém-chegante. Algum positivo, a rogo da Prefeitura Municipal de Todavia, pôs fogo em três girandolas de foguetes, de três arroios e de trinta e duas bombas, de diferentes estrondos, cada um, vindos do fabrico de um camarada regionalmente conhecido como Bigorrilho, de forma que o esporro nos céus foi um sucesso formidável. Um outro quebra faca, igualmente a soldo do erário, cuidou de levar a pouca bagagem do Capitão - um velho baú de madeira descorada, sem alças, e uma surrada valise de mão - ao Hotel Sudoeste, decadente sobrado de péssimo arrojo arquitetônico, ali logo ao derredor da estação, e bem pertinho da Prefeitura e da Casa de Detenção. Meninos em calças curtas de brim e camisas de pano barato, pés descalços, que os há em todos os cantos mais pobres do planeta, não sendo única à Todavia essa desprimorosa primazia, correram aos cascos a catar as flechas. Cães vadios, afoitos e assustadiços, latiram em coro. |
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