Aplicativos de prevenção ao suicídio disponíveis no Brasil não têm validação científica, aponta pesquisa - Joana D'arc

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11 abril 2026

Aplicativos de prevenção ao suicídio disponíveis no Brasil não têm validação científica, aponta pesquisa

Estudo avaliou 17 aplicativos e encontrou ausência de validação científica, falhas de segurança de dados e uso de inteligência artificial sem protocolo clínico. Artigo foi publicado no Journal of Human Growth and Development.

Nenhum dos 17 aplicativos de prevenção ao suicídio disponíveis para usuários brasileiros declara validação científica em sua documentação. O dado é resultado de uma pesquisa publicada em março de 2026 no Journal of Human Growth and Development, conduzida pela professora Etiene Macedo, psicóloga e pós-doutora em Psicologia Clínica, junto a três estudantes de graduação em Psicologia do IPOG - Instituto de Pós-graduação e Graduação, em Goiânia.

O estudo é pioneiro no Brasil. Nenhum outro trabalho havia avaliado, com critérios técnicos padronizados, aplicativos de saúde mental voltados especificamente à prevenção do suicídio que estivessem disponíveis para download no país.

O cenário que motivou a pesquisa

De 2010 a 2019, o número de mortes por suicídio no Brasil cresceu 43%, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, passando de 9.454 para 13.523 casos anuais. No mesmo período, o uso de aplicativos de saúde mental entre adolescentes de 11 a 18 anos subiu de 20% para 34%, conforme literatura científica internacional citada no artigo.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, do IBGE, detalhou o quadro entre jovens. Entre estudantes de 13 a 17 anos, 25% relataram sentir que a vida não vale a pena ser vivida. Entre as meninas, 43,4% afirmaram já ter sentido vontade de se machucar.

Foi nesse contexto, com mais jovens em sofrimento e mais jovens recorrendo à tecnologia em busca de ajuda, que a professora Etiene decidiu investigar o que esses aplicativos efetivamente oferecem. Especialista no atendimento à prevenção do suicídio em adolescentes, ela já havia identificado a lacuna durante uma especialização que fazia na época da pandemia.

“Eu estava fazendo uma especialização em prevenção do suicídio em adolescentes e um professor no Canadá dizia que, se a gente quisesse falar de prevenção do suicídio com adolescentes e jovens, teria que entender os dispositivos digitais. Aquele foi o gatilho”, conta a pesquisadora.

O que a pesquisa encontrou

A equipe coletou dados entre outubro e novembro de 2024. Utilizou uma técnica de ‘web scraping’ para mapear sistematicamente as lojas Google Play Store e Apple App Store, e aplicou os critérios da norma ISO/TS 82304-2:2021, que define parâmetros de qualidade e confiabilidade para softwares de saúde. De 24 aplicativos inicialmente identificados, 17 atenderam os critérios de inclusão e foram avaliados em dois eixos: técnico e clínico.

O resultado surpreendeu a própria pesquisadora.

“Eu esperava encontrar um desenho mais claro sobre como os aplicativos funcionavam, e fiquei surpresa com a desregulação e a falta de critério. Em alguns aplicativos, não havia sequer limite de classificação etária. Pareciam que as ferramentas estavam lá somente para ser vendidas”, afirma a psicóloga.

Entre os problemas identificados: a maioria dos aplicativos não conecta o usuário diretamente ao CVV (Centro de Valorização da Vida) nem oferece contato síncrono com profissional de saúde. Alguns usam inteligência artificial para responder mensagens de crise sem supervisão clínica ou protocolo ético declarado. Vários foram desenvolvidos por empresas estrangeiras e não passaram por validação cultural nem de linguagem para o público brasileiro.

Sete aplicativos apresentaram ambiguidade nos objetivos e na definição do público-alvo. Seis recomendavam o início de uso a partir dos 12 anos, sem indicação clara dos riscos para essa faixa etária. Três apresentaram instabilidade técnica, anúncios invasivos e políticas de privacidade imprecisas.

“O estudo avaliou 17 aplicativos e nenhum apresenta validação científica declarada. Isso significa, para quem não está na academia: não é seguro utilizar esses aplicativos. A gente não tem validação, e não tem elementos que já são obrigatórios para ferramentas que se dizem de saúde mental, como acesso à linha direta do CVV ou contato síncrono com um profissional. Isso é imperícia. E ausência de regulação”, avalia a especialista.

Inteligência artificial sem protocolo clínico

Alguns dos aplicativos avaliados utilizam inteligência artificial para interagir com usuários em momento de crise. A pesquisa alerta para os riscos desse uso sem supervisão especializada.

“O que pode acontecer com um jovem em sofrimento que recebe como resposta uma IA sem protocolo ético? A intervenção pode não ser efetiva, e esse jovem pode ser muito mais prejudicado do que beneficiado pela ferramenta. Até hoje, o que a ciência indica é que a intervenção humana é necessária na prevenção do suicídio”, alerta a pesquisadora.

O que precisa mudar

A pesquisa não propõe o abandono dos aplicativos como ferramenta de saúde mental. A conclusão aponta outra direção: o potencial dessas tecnologias só pode ser aproveitado com regulação, validação científica e integração com os serviços públicos de saúde.

“A gente recomenda a integração com o SUS porque pode favorecer o acesso. Não para substituir o atendimento humano, de jeito nenhum, mas para otimizar o acesso e direcionar melhor a demanda reprimida de pessoas que precisam de ajuda em saúde mental e ficam meses sem nenhum tipo de atendimento, sequer de triagem”, defende a professora Etiene.

O artigo recomenda ainda a construção de um marco regulatório com envolvimento da ANVISA, do Conselho Federal de Psicologia e do Ministério da Saúde. A pesquisadora sintetiza o que o estudo pede às autoridades de saúde:

“O que esse estudo pede é um comprometimento ético-político das empresas e dos gestores no desenvolvimento dessas ferramentas. Isso significa incluir profissionais da área, incluir a população, incluir os próprios adolescentes e jovens antes de disponibilizar esses aplicativos. Para entender se as ferramentas estão conversando com as necessidades deles, passá-las por validação com especialistas e oferecê-las como política pública”, resume a psicoterapeuta.

Iniciação Científica: alunos de graduação como coautores

O artigo é resultado das atividades do NICEPI (Núcleo de Iniciação Científica e Pesquisas do IPOG) e integra o ciclo de estágio pós-doutoral da professora Etiene. Os coautores são estudantes da graduação em Psicologia: Ana Beatriz Chicarolli (10º período), Nayara Rodrigues (6º período) e Marcelo Augusto (6º período).

Além de coletar e organizar os dados, os alunos participaram da tradução, do estudo teórico e da construção do texto científico. A qualidade do trabalho produzido superou o que se espera normalmente de pesquisas de iniciação científica no nível de graduação.

Segundo a professora Etiene, esse formato é inédito no país.

“Esse tipo de avaliação, do jeito que foi conduzido, não é uma simples revisão de literatura. Está na vanguarda das análises de ferramentas digitais, como já vem sendo feito em outros países. Por isso, decidimos trazer essa abordagem para o contexto brasileiro”, explica a doutora.

Da esquerda para a direita: Nayara Rodrigues, a professora Dra. Etiene Macedo, Ana Beatriz Chicarolli e Marcelo Augusto durante apresentação do estudo na Jornada Científica do IPOG, em Goiânia — Foto: Arquivo pessoal

A revista científica

O Journal of Human Growth and Development (JHGD) é editado pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) e ocupa posição de relevância no cenário científico nacional e internacional, especialmente nas áreas de ciências da vida, saúde pública e pediatria. A publicação é lida pela comunidade científica em diferentes países e adota processo de avaliação por pares. O artigo foi submetido em novembro de 2025, aceito em dezembro e publicado em março de 2026.

VI Congresso Brasileiro de Prevenção do Suicídio

Os resultados da pesquisa serão apresentados pela professora Etiene no VI Congresso Brasileiro de Prevenção do Suicídio, realizado de 5 a 8 de agosto de 2026, em Petrópolis (RJ).

Organizado pela ABEPS (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio) e realizado a cada dois anos, o congresso é a principal referência nacional no tema. A edição anterior, realizada em Brasília em 2024, reuniu mais de 600 participantes em uma programação de palestras, mesas-redondas e minicursos. A edição deste ano reúne profissionais, pesquisadores, estudantes e demais interessados na área.

Sobre a pesquisadora

Etiene Macedo é psicóloga com doutorado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (2018) e mestrado em Psicologia Clínica pela mesma instituição (2012). É especialista em Terapia Familiar e de Casais pela PUC-GO e atua há anos no atendimento individual e em grupo de adolescentes, adultos e famílias, com ênfase na prevenção do suicídio em adolescentes. Professora de graduação e pós-graduação do IPOG e coordenadora do NICEPI, o presente artigo encerra seu ciclo de estágio pós-doutoral.

O artigo completo está disponível em acesso aberto:

https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/jhgd/article/view/17638

SE VOCÊ PRECISA DE AJUDA: CVV – Centro de Valorização da Vida. Ligue 188, disponível 24 horas por dia. Atendimento também por chat em cvv.org.br.


Fonte: IPOG – Instituto de Pós-graduação e Graduação


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