Alvo de racismo, dreads são símbolo de resistência e resgate de autoestima de pessoas negras - Joana D'arc

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24 fevereiro 2024

Alvo de racismo, dreads são símbolo de resistência e resgate de autoestima de pessoas negras

Caso de discriminação contra aluno negro em escola no Texas, nos EUA, reacendeu o debate sobre a cultura ancestral dos dreadlocks, que já são aplicados até em pessoas calvas através de técnica inovadora da Africarioca Conceito
 

 

O debate sobre o racismo estético voltou à tona após o jovem negro Darryl George, aluno de uma escola no Estado do Texas, nos Estados Unidos, ser suspenso por violar o “código de vestimenta” do distrito por conta do uso de dreadlocks. Os comentários pejorativos sobre o cabelo do estudante esbarra no preconceito racial, que historicamente encobre o conhecimento de que a técnica dos dreads é símbolo cultural e de resistência para comunidades negras ao redor do mundo, e ainda hoje é responsável por recuperar a autoestima de homens e mulheres através de afroempreendimentos como a barbearia Africarioca Conceito.

 

Apesar de ter sido moldado há séculos, os dreads ganharam grande popularidade a partir dos anos 70 e 80 quando o cantor jamaicano Bob Marley, seguidor do rastafarianismo, estourou a nível mundial com seus cabelos compridos que, por vezes, ultrapassavam a altura do peito. Na época, ao mesmo tempo em que predominava o estigma de que os dreadlocks eram supostamente “sujos”, “desleixados” ou usados por “marginais”, a união do movimento negro na luta por direitos, inclusive culturais, ajudou a manter viva essa técnica ancestral. Hoje, de acordo com o dreadmaker Lucas Preto, CEO da Africacrioca Conceito, cada vez mais pessoas negras de todas as idades têm enxergado no dread uma fonte de beleza.

 

“É muito mais comum hoje crianças de 10 anos colocarem dreads, coisa que era inimaginável há alguns anos por ser “mal visto”. Graças às lutas sociais dos movimentos negros, o dread se tornou um ponto de conexão entre o eu oprimido e a autoestima. Aqui na Africarioca as pessoas literalmente choram ao se olharem no espelho após eu ter finalizado o trabalho”, conta Lucas Preto.

 

Existem muitos jeitos de se fazer dreads. O mais comum deles é o dread feito com agulha de crochê, técnica que consiste quase em uma costura no qual o cabelo é enrolado e moldado em um formato cilíndrico. Como existem dreadlocks mais finos, grossos, médios, curtos ou compridos, é difícil definir a duração no salão, mas a média fica entre 4 e 5 horas na cadeira. Também ao contrário do que muitos pensam, é mito que para tirar os dreads é necessário raspar todo o cabelo. Existem técnicas de desembaraçar que recuperam até 80% dos fios, segundo Lucas Preto. Já a manutenção varia conforme o crescimento de cada cabelo, mas geralmente é feita a cada X meses.

 

Dreads em calvos

 

O empoderamento através dos dreads levou Lucas Preto a criar, em 2020, a técnica dos Baldlocs, que consiste em aplicar dreads em pessoas calvas. Autodidata no ramo da estética capilar, todo o processo desenvolvido pelo afroempreendedor, desde a produção da base do cabelo até a aplicação nos clientes, é autoral. O procedimento é realizado com needle technique (técnica de agulha) e não utiliza nenhuma substância danosa ao couro cabeludo, possibilitando e estimulando o crescimento nas regiões ainda propícias a terem fios.
 


“Só quem sofre com calvície sabe o desafio que é estar de bem com o espelho, especialmente quando se é um homem negro, que cresce com o estígma de não poder ou conseguir ter um momento de autocuidado. Os Baldlocs impactam a vida de muitas pessoas e é incrível vê-las chegando carecas no meu estúdio e saindo renovadas, não só no visual, mas elas mudam por dentro também. Estamos há um tempo desenvolvendo uma dinâmica de fazer o procedimento às cegas e só mostrar o resultado no final, e as pessoas literalmente choram ao se olhar no espelho quando a revelação é feita”, relata o afroempreendedor.

 

O paulista Luciano Pires, de 48 anos, morador de Tatuapé, conheceu o procedimento através das redes sociais e foi atendido pela Africarioca durante a tour dos Baldlocs em São Paulo, no mês de abril. Segundo ele, hoje sua autoestima está revigorada. “Eu estava deixando o cabelo crescer desde a pandemia e aproveitei para fazer os ‘Baldlocs’. Agora eu nem consigo lembrar ao me olhar no espelho como eu era careca. As pessoas dizem que combinou tanto comigo que parece que sempre fui assim”, compartilha Pires.

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