Ela sente ardência para urinar. Depois vem a pressão na bexiga, aquela vontade insistente de ir ao banheiro mesmo sem quase sair urina, o desconforto pélvico que aparece sem avisar. O caminho parece óbvio: exame, antibiótico, alguns dias de alívio. Até que tudo volta.
Às vezes, volta igual. Às vezes, pior. O exame de urina não mostra bactéria. A urocultura vem negativa. O antibiótico já não faz o mesmo efeito. Ainda assim, a paciente continua ouvindo a mesma explicação: “deve ser infecção urinária de repetição”. Mas nem sempre é.
O urologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Dr. Alexandre Sallum Bull explica: “Uma das armadilhas mais comuns no tratamento dos sintomas urinários é associar automaticamente ardência, urgência e dor pélvica à presença de bactérias.
A infecção urinária é uma causa frequente desses sintomas, mas não é a única. Quando os exames vêm repetidamente negativos ou quando o paciente não melhora de forma consistente com antibióticos, é preciso ampliar a investigação. Insistir no mesmo diagnóstico pode atrasar o tratamento correto”.
O problema é que, enquanto o diagnóstico não vem, a vida do paciente vai se limitando. Passa a evitar viagens longas, relações sexuais, compromissos sem banheiro por perto. Aprende a conviver com a próxima crise antes mesmo de ela acontecer. E, muitas vezes, carrega junto uma sensação silenciosa de culpa: “será que estou fazendo algo errado?” Na maior parte das vezes, não está.
Quando parece infecção, mas não é
A infecção urinária bacteriana costuma ter um comportamento relativamente claro. Em geral, há presença de bactérias na urina, leucócitos elevados, sintomas compatíveis e melhora após o antibiótico adequado.
Mas há um grupo de pacientes que não segue esse padrão. Os sintomas são reais, intensos e recorrentes, mas os exames não confirmam infecção. Nesses casos, algumas condições podem estar por trás do quadro, como cistite intersticial, bexiga hiperativa, disfunção do assoalho pélvico, atrofia urogenital na menopausa, cálculos urinários, prostatite crônica em homens e outras alterações inflamatórias ou funcionais do trato urinário.
A grande dificuldade é que muitas dessas doenças imitam a infecção urinária. O paciente sente ardência. Sente urgência. Sente dor. Mas a origem não está em uma bactéria e sim em uma bexiga inflamada, irritada, hiperativa ou sensibilizada.
É por isso que o tratamento com antibiótico pode até dar uma falsa impressão de melhora momentânea, mas não resolve o problema de base.
“Quando a causa é inflamatória, funcional ou muscular, o antibiótico não trata o mecanismo real da doença. O paciente pode melhorar por coincidência, por efeito anti-inflamatório indireto ou pela oscilação natural dos sintomas, mas tende a piorar novamente”, afirma o Dr. Alexandre Sallum.
A cistite intersticial: o diagnóstico que muitas mulheres só descobrem depois de anos
Entre as condições mais confundidas com infecção urinária está a cistite intersticial, também conhecida como síndrome da bexiga dolorosa.
Apesar do nome, ela não é uma infecção comum. Trata-se de uma condição crônica, complexa e ainda pouco reconhecida, caracterizada por dor ou pressão na região da bexiga, urgência urinária, aumento da frequência urinária e desconforto pélvico persistente.
Muitas pacientes relatam que a dor piora quando a bexiga enche e melhora parcialmente após urinar. Outras sentem ardência contínua, sensação de peso baixo no abdômen ou necessidade de ir ao banheiro dezenas de vezes ao dia.
O detalhe mais frustrante: os exames podem vir normais. E é justamente aí que começa a peregrinação. A paciente trata infecção. Depois trata de novo. Troca de antibiótico. Faz novas culturas. Escuta que talvez seja ansiedade. Escuta que “não deu nada”. Mas continua com dor.
“A cistite intersticial é um diagnóstico que exige escuta clínica. Não basta olhar apenas o exame de urina. É preciso entender o padrão da dor, a relação com o enchimento da bexiga, os gatilhos alimentares, a história de antibióticos repetidos e o impacto na qualidade de vida”, explica o urologista.
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