
Segunda fase do projeto Olha o Clima, Litoral! prevê restauração de ecossistemas costeiros, apoio aos municípios, mobilização de pescadores e novas ações de educação ambiental
Com a meta de restaurar até 15 hectares de manguezais e brejos salinos na Baía de Antonina (PR), o projeto Olha o Clima, Litoral!, realizado pelo Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, inicia sua segunda fase no litoral do Paraná. A nova etapa, que vai até 2030, inclui ainda ações de educação ambiental, mobilização de comunidades pesqueiras e apoio técnico aos municípios para fortalecer estratégias de adaptação climática. Este projeto é realizado com o apoio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
A iniciativa ganha ainda mais relevância diante de um alerta da International Union for Conservation of Nature (IUCN), que aponta que metade dos manguezais do mundo pode entrar em colapso até 2050 em razão do aumento do nível do mar, da urbanização desordenada e de outros impactos das mudanças climáticas.
Embora ocupem uma pequena parcela da superfície terrestre, os manguezais estão entre os ecossistemas mais eficientes na captura e armazenamento de carbono, além de atuarem como barreiras naturais contra erosão, ressacas e inundações costeiras. No Brasil, que abriga uma das maiores extensões contínuas de manguezais do planeta, sua conservação auxilia a pesca artesanal, a segurança alimentar de milhares de famílias e a manutenção da biodiversidade.
O projeto Olha o Clima, Litoral! atua de forma integrada em diferentes frentes de atuação, como restauração ecológica, adaptação à mudança climática, articulação territorial, ações socioambientais e comunicação. Na primeira fase, realizada entre 2022 e 2025, o projeto promoveu a restauração de 6,55 hectares de manguezais e brejos salinos na baía de Antonina com a remoção de 654,8 toneladas de braquiárias-d’água, espécie exótica invasora que se espalhou pelo litoral após ter sido introduzida para alimentação de búfalos nas décadas de 1960 e 1970.
“Daremos continuidade a todas as frentes de atuação do projeto, incluindo as ações de articulação voltadas à adaptação às mudanças climáticas. Também vamos aproveitar os dados e diagnósticos produzidos ao longo dos dois primeiros anos de trabalho em cada município. Com a posse dos novos gestores municipais em janeiro de 2026, devido ao processo eleitoral de 2025, será necessário retomar o diálogo com as administrações locais para apresentar os resultados já alcançados e fortalecer a continuidade das ações planejadas”, afirma Karina Luiza de Oliveira, bióloga e coordenadora geral do projeto Olha o Clima, Litoral!.
Ainda, dentre os resultados obtidos na primeira fase do projeto, “houve estudos sobre a elevação do nível do mar, estoques de carbono azul e vulnerabilidade costeira, que geraram resultados importantes na produção de conhecimento e na mobilização das pessoas e instituições, além de fornecer um diagnóstico específico para os sete municípios do litoral paranaense”, explica Paula Nassar, da equipe responsável pela frente de articulação e mudanças climáticas do projeto.
Os levantamentos mostraram que todos os municípios da região apresentam algum grau de vulnerabilidade climática, embora os desafios variem conforme as características de cada território. “Enquanto cidades costeiras, como Matinhos, Pontal do Paraná, Guaratuba e Paranaguá, enfrentam riscos relacionados à erosão costeira, inundações e avanço do mar, municípios estuarinos como Antonina, Morretes e Guaraqueçaba têm desafios mais ligados às inundações e aos impactos sobre manguezais e outros ecossistemas”, destaca Paula.
Restauração ecológica amplia áreas recuperadas
A restauração dos manguezais e brejos salinos continuará sendo uma das principais frentes de atuação da segunda fase do projeto. O trabalho é realizado por meio da remoção da braquiária-d’água. “Atualmente, registramos mais de 200 hectares de áreas ocupadas por espécies invasoras, o que representa uma extensão bastante significativa e reforça a necessidade de ações de manejo e restauração desses ecossistemas”, afirma Larissa Teixeira de Andrade, responsável pela frente de restauração do projeto Olha o Clima, Litoral!.
Segundo ela, a espécie invasora compromete o equilíbrio dos ecossistemas ao impedir o desenvolvimento da vegetação nativa e dificultar a sobrevivência de diversas espécies da fauna. “A presença da braquiária reduz significativamente a riqueza de espécies vegetais, pois ela cresce sobre as plantas nativas e dificulta seu desenvolvimento. Isso afeta funções ecológicas importantes desempenhadas por essas espécies, como a fixação dos sedimentos, a oferta de alimento para a fauna local e o processamento da matéria orgânica no solo, gerando impactos em todo o ecossistema”, explica.
O método adotado para a restauração é conhecido como regeneração natural assistida (RNA). Após a remoção da espécie invasora, a vegetação nativa se recupera naturalmente, sem necessidade de plantio. “O manejo realizado consiste exclusivamente na descontaminação da área, por meio da remoção da braquiária, sem a necessidade de plantio posterior. Após a retirada da espécie invasora, a vegetação nativa cresce novamente”, destaca Larissa.
Os impactos positivos da restauração já realizada pelo projeto na fase anterior podem ser observados nos manguezais e brejos salinos recuperados. O retorno da vegetação nativa contribui para o aumento da diversidade de aves, que passou de 27 para 50 espécies registradas nas áreas restauradas. “Na primeira fase, a gente conseguiu disponibilizar área para 13 casais de bicudinho-do-brejo”, destaca Larissa. A ave é considerada um importante indicador ambiental, pois depende de ecossistemas conservados para sua sobrevivência.
A nova fase do projeto também prevê estudos sobre a saúde da vegetação em áreas invadidas pela braquiária, monitoramento da flora e da avifauna e análises para identificar áreas prioritárias para restauração. Outra frente será a elaboração de estudos voltados à restauração ecológica em Paranaguá (PR). As atividades incluem o diagnóstico da viabilidade de recuperação dos bosques urbanos do município, a elaboração de diretrizes para a restauração de manguezais e a construção de um plano de ação para orientar futuras intervenções.
Municípios receberão oficinas e apoio técnico
Além da restauração, a nova etapa será a retomada do diálogo com as prefeituras de Antonina, Guaratuba, Pontal do Paraná, Morretes, Guaraqueçaba, Matinhos e Paranaguá. “Como mudou a gestão, faremos uma oficina com cada um dos municípios, além de uma oficina intermunicipal, pois apesar dos limites físicos, as cidades não estão isoladas na questão da mudança climática”, complementa Karina, coordenadora do projeto.
Além das oficinas, os municípios interessados poderão receber acompanhamento técnico ao longo dos próximos anos. “O projeto oferecerá apoio contínuo às cidades do litoral que desejarem avançar na agenda climática, seja por meio de orientações técnicas, esclarecimento de dúvidas, editais abertos ou compartilhamento de ferramentas e plataformas atualizadas”, complementa Letícia Alves, da equipe de articulação e clima do projeto.
Comunidades pesqueiras e escolas ganham protagonismo
Outra novidade será a implementação da ação Manguezal Limpo, que envolverá pescadores artesanais de Antonina e Paranaguá em atividades mensais de coleta de resíduos e remoção de braquiária-d’água nos manguezais. A iniciativa foi construída a partir das demandas apresentadas pelas próprias comunidades pesqueiras durante a primeira fase do projeto.
“Essa foi também uma demanda da própria comunidade. Os participantes recordam da experiência no programa Baía Limpa, também desenvolvido no Paraná, e ressaltam os resultados positivos alcançados à época. Por isso, demonstraram interesse em que trabalhássemos ações com objetivos semelhantes”, conta Karina.
Os participantes receberão capacitação sobre conservação dos manguezais, poluição marinha, uso correto de equipamentos de proteção individual (EPIs) e técnicas para o controle da braquiária-d’água, incluindo orientações práticas para a remoção manual da espécie invasora. Os resíduos recolhidos durante as ações de limpeza dos manguezais serão destinados à Associação dos Catadores de Reciclável do Km 04 de Antonina, que também receberá apoio por meio de capacitações e ações de fortalecimento institucional voltadas à gestão e ao aproveitamento adequado dos materiais coletados.
Para ampliar o alcance das ações de conscientização, o projeto também produzirá materiais de comunicação e educação ambiental voltados às comunidades locais e tradicionais e ao público em geral, abordando temas como conservação dos manguezais, mudanças climáticas, biodiversidade e gestão adequada de resíduos.
A iniciativa do Mater Natura também fortalecerá as ações de educação ambiental com a produção de kits pedagógicos sobre mudanças climáticas, biodiversidade e conservação dos ecossistemas costeiros, que serão utilizados por professores das redes municipais de Antonina e Matinhos. “O que os educadores apontaram como demanda foi a necessidade de materiais para usar em sala de aula, com conteúdo didático e lúdico sobre mudanças climáticas e biodiversidade. Os professores serão treinados para utilizar esse material e depois, vamos acompanhar sua aplicação em sala de aula”, explica a coordenadora do Olha o Clima, Litoral!.
Para saber mais sobre o projeto Olha o Clima, Litoral!, acesse www.maternatura.org.br/
Sobre o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
O Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua há mais de 40 anos na conservação da biodiversidade e na defesa do meio ambiente no Brasil. Desenvolve projetos voltados à proteção de ecossistemas, estudo e conservação de espécies raras e ameaçadas, educação ambiental, adaptação à mudança do clima e fortalecimento de políticas públicas ambientais, com base em evidências científicas e atuação em rede. Para mais informações, acesse: maternatura.org.br
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