Vídeos de poucos segundos, excesso de estímulos digitais, respostas prontas fornecidas por inteligência artificial e cada vez menos tempo dedicado à leitura profunda. O comportamento moderno está mudando rapidamente a forma como o cérebro humano consome informação — e especialistas começam a levantar um alerta importante: estamos treinando o cérebro para pensar menos? Segundo o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP Dr. Fernando Gomes, o cérebro funciona como um sistema de adaptação contínua. Quanto mais determinados circuitos são utilizados, mais fortalecidos eles ficam. O problema é que o padrão atual de hiperestimulação e consumo acelerado de conteúdo pode favorecer justamente o enfraquecimento de habilidades cognitivas importantes. “O cérebro humano é extremamente plástico. Ele se adapta ao tipo de estímulo que recebe diariamente. Quando uma pessoa passa horas consumindo conteúdos rápidos, fragmentados e superficiais, o cérebro começa a reduzir tolerância para atividades que exigem atenção prolongada, raciocínio profundo e reflexão”, explica. A preocupação cresce em um momento em que plataformas digitais disputam atenção por meio de vídeos curtos, rolagem infinita e estímulos constantes, enquanto ferramentas de inteligência artificial começam a assumir funções antes realizadas pelo próprio pensamento humano, como escrita, pesquisa, síntese e organização de ideias. Para o especialista, a questão não é demonizar tecnologia ou inteligência artificial, mas entender como o cérebro responde ao excesso de terceirização cognitiva. “Quando usamos tecnologia para potencializar aprendizado, produtividade e criatividade, ela pode ser extremamente positiva. O risco aparece quando começamos a substituir processos mentais importantes em vez de estimulá-los. O cérebro precisa ser desafiado para continuar eficiente”, afirma Dr. Fernando Gomes. Leitura profunda está diminuindo Entre os hábitos mais impactados pela transformação digital está a leitura prolongada. Segundo o neurocientista, ler exige um trabalho cerebral complexo envolvendo linguagem, memória, interpretação, imaginação, associação de ideias e capacidade de abstração. “O cérebro da leitura é diferente do cérebro do consumo rápido de estímulos. A leitura profunda exige concentração sustentada, construção de imagens mentais, interpretação e pensamento crítico. Quando reduzimos muito esse hábito, determinadas redes neurais podem ser menos estimuladas”, explica. Além disso, o excesso de alternância entre aplicativos, notificações e conteúdos rápidos fragmenta continuamente a atenção. Na prática, o cérebro passa a funcionar em estado constante de busca por novidade. “O sistema de recompensa cerebral responde muito ao imediatismo digital. Vídeos curtos oferecem estímulos rápidos, mudança constante de informação e sensação frequente de novidade. Isso pode diminuir a tolerância cerebral para atividades mais lentas e cognitivamente exigentes”, alerta. Concentração e memória podem ser afetadas Outro ponto de preocupação envolve a capacidade de foco prolongado. Segundo Dr. Fernando Gomes, o cérebro hiperestimulado tende a apresentar mais dificuldade para sustentar atenção em tarefas longas, estudos, reuniões, leituras extensas ou atividades que exigem aprofundamento intelectual. Além disso, a dependência crescente de ferramentas digitais também pode impactar processos relacionados à memória. “O cérebro sempre utilizou ferramentas externas de apoio, como livros, agendas e computadores. Mas hoje existe uma terceirização muito intensa de funções cognitivas básicas. Muitas pessoas já não memorizam informações, não elaboram raciocínios completos e nem exercitam interpretação antes de buscar respostas prontas”, explica. A inteligência artificial pode mudar a forma de pensar Com a popularização das inteligências artificiais generativas, especialistas começam a discutir os impactos cognitivos da automatização do pensamento. “O risco não é a inteligência artificial substituir o ser humano. O risco é o ser humano parar de exercitar habilidades exclusivamente humanas, como reflexão crítica, criatividade, capacidade de dúvida, interpretação emocional e construção profunda do pensamento”, afirma o neurocientista. Ele ressalta que o cérebro funciona em lógica de uso e desuso. Ou seja: circuitos frequentemente utilizados tendem a se fortalecer, enquanto funções menos estimuladas podem perder eficiência ao longo do tempo. “O cérebro não foi feito apenas para consumir respostas. Ele foi feito para construir perguntas, conectar ideias, interpretar contextos e criar significado”, destaca. Como proteger o cérebro Apesar do cenário, o cérebro possui alta capacidade de adaptação e recuperação quando adequadamente estimulado. Entre os hábitos considerados importantes para preservação cognitiva estão:
“O cérebro precisa de profundidade, não apenas velocidade. O desafio da era digital não é abandonar a tecnologia, mas evitar que ela reduza nossa capacidade de pensar de forma complexa”, conclui Dr. Fernando Gomes.
Sobre Dr. Fernando Gomes Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Desde 2012 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. É também autor de 10 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados. Coordena um ambulatório relacionado a doenças do envelhecimento no Hospital das Clínicas e desde 2026 está a frente da Unidade de Hidrocefalia de Pressão Normal do Hospital Moriah. drfernandoneuro
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02 junho 2026
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Consumo acelerado de informação pode afetar memória, concentração, pensamento crítico e capacidade cognitiva ao longo do tempo. Como se proteger.
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