Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais continuam crescendo no Brasil. Em 2025, foram concedidos mais de 500 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental, um aumento de mais de 15 % em comparação com 2024
A mesma tecnologia que ajuda, também adoece. Na mesma proporção que o celular otimiza e aumenta a produtividade, também pode estar criando um novo risco para a saúde mental dos trabalhadores.
Para o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, as mensagens enviadas à noite, grupos de trabalho ativos durante finais de semana, notificações fora do expediente e a sensação constante de que é preciso estar disponível a qualquer momento estão levando muitos profissionais a um estado permanente de alerta e esse comportamento pode gerar consequências importantes para a saúde emocional.
"O trabalhador não precisa necessariamente estar trabalhando para estar sob estresse. Muitas vezes basta a expectativa de que uma nova demanda pode surgir a qualquer momento. O cérebro permanece em vigilância constante", explica. Esse estado de alerta contínuo dificulta o descanso mental e impede que o organismo complete processos importantes de recuperação emocional.
"O cérebro precisa de momentos de desconexão para consolidar memórias, regular emoções e restaurar a energia mental. Quando a pessoa permanece monitorando notificações o tempo todo, ela reduz sua capacidade de recuperação", alerta.
Ele explica que o problema não é apenas o volume de mensagens, mas a percepção de que tudo precisa ser resolvido imediatamente. Isso alimenta ansiedade e aumenta o desgaste emocional."
Sinais que o celular pode estar adoecendo
O especialista destaca que um dos primeiros sinais de que a relação com o celular está se tornando prejudicial é a incapacidade de se desligar mentalmente do trabalho.
Entre os sinais de alerta estão:
- Verificar mensagens corporativas logo ao acordar;
- Sentir culpa ao não responder imediatamente;
- Levar o celular para todos os ambientes da casa;
- Interromper momentos de lazer para acompanhar grupos profissionais;
- Dificuldade para dormir após interações relacionadas ao trabalho;
- Sensação de estar sempre devendo alguma resposta.
"Quando o trabalhador perde a capacidade de diferenciar momentos de trabalho e momentos de recuperação, o risco de adoecimento emocional aumenta significativamente", afirma.
Como criar limites saudáveis no uso do celular para trabalhar
Daniel Sócrates destaca que a solução não está em abandonar a tecnologia, mas em estabelecer fronteiras claras entre vida profissional e pessoal. Entre as recomendações do especialista estão:
1. Criar horários para consultar mensagens
Evitar acompanhar grupos corporativos continuamente ao longo do dia.
2. Desativar notificações fora do expediente
Nem toda mensagem precisa interromper momentos de descanso.
3. Evitar celular profissional no quarto
O ambiente de sono deve estar associado ao descanso e não ao trabalho.
4. Definir expectativas claras nas equipes
Lideranças precisam comunicar quando uma resposta imediata realmente é necessária.
5. Respeitar períodos de recuperação
Tempo livre não é improdutividade. É parte fundamental da manutenção da saúde mental.
Para o psiquiatra, o futuro das relações de trabalho passa pela capacidade de proteger a atenção e a saúde mental dos profissionais. "O celular é uma ferramenta extraordinária. O problema surge quando ele deixa de ser um instrumento de trabalho e passa a ocupar todos os espaços da vida. Nenhum ser humano foi feito para permanecer disponível 24 horas por dia."
Sobre Dr. Daniel Sócrates Link
Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.

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