Após anos de domínio da arquitetura minimalista e corporativa, cresce a valorização de projetos afetivos que resgatam memória, vivência e referências brasileiras, com destaque para a arte e o artesanato.
Sua casa tem ‘cara de casa’? A pergunta pode soar simples à primeira vista, mas tem atravessado discussões importantes no campo da arquitetura contemporânea. Após anos de predominância do minimalismo e do modernismo, marcado por linhas retas, excesso de vidro, metal e paletas frias, cresce um movimento que propõe uma revisão desse modelo.
Antes, ambientes amplos, organizados e visualmente “limpos” eram sinônimos de sofisticação. Inspiradas por referências do alto padrão norte-americano, as casas adotaram uma linguagem próxima à de escritórios e clínicas. O resultado: casas impecáveis, mas que deixam pouco espaço para a espontaneidade do dia a dia.
Nos últimos anos, no entanto, esse modelo passou a dar lugar a abordagens mais sensíveis e conectadas com a realidade. Arquitetos e designers têm apostado em projetos que valorizam a vivência, memória e a construção afetiva dos espaços. Surge, assim, a ideia da ‘casa com cara de casa’, conceito que resgata o cotidiano e às vivências como parte fundamental da estética do lar.
Ainda que de forma gradual, a arquiteta e gestora do escritório BESPOKE Dela, Rafaela Giudice, acompanha de perto a mudança no olhar arquitetônico e revela que a busca por referências externas, vindas de diferentes capitais e regiões do Brasil, tem despertado um novo repertório entre moradores e profissionais.
“Existe uma discussão grande na arquitetura sobre esse momento em que as casas se dizem ser ‘minimalistas’, onde a cor é um problema, com poucos objetos e mobiliário; onde a busca da perfeição parece ser sinônimo de deixar tudo intacto. E agora a gente volta a falar de casas com vida, com história. Eu sempre digo que uma casa nunca está pronta, mesmo que a obra tenha sido entregue. Tem sempre algo para fazer, para mudar, para testar, algum objeto novo. A vida é muito dinâmica e orgânica – e a casa precisa representar isso”, explica.
Nesse cenário, mais do que inserir elementos típicos nos projetos, a proposta é desenvolver um olhar mais atento e sensível. Segundo Rafaela, elementos pessoais ganham protagonismo e passam a compor os ambientes de forma mais livre, como objetos trazidos de viagens, móveis antigos, peças herdadas e itens colecionados ao longo do tempo.
A arquiteta destaca que há também um certo cansaço em relação à padronização estética. A ideia de que a sofisticação está diretamente ligada a ambientes rígidos e altamente controlados começa a perder força, abrindo espaço para escolhas mais autênticas e conectadas com a realidade de quem habita os espaços. “É uma casa que não é toda nova, que tem coisas antigas, que foi sendo construída ao longo do tempo, com cores, vivacidade e aconchego. Isso traz identidade”, diz Rafaela.
Esse movimento também impulsiona uma valorização mais evidente da arquitetura brasileira. Apesar da máxima do ‘bege’ como sinônimo de sofisticação, o Brasil se destaca pelo uso de materiais naturais, presença de cores e a mistura de texturas, valorizando as produções feitas à mão. Madeira, barro, argila e fibras aparecem como elementos ‘destaques’ nas plantas, que aquecem os ambientes e reforçam conexões com o território e com a cultura local.
A força do artesanato regional, com rendas, cerâmicas e objetos feitos à mão, incluindo o uso do barro e da palha, tem influenciado projetos contemporâneos em diferentes partes do país. Essa estética, além de carregada de significado cultural, também dialoga com um público que busca mais originalidade e menos padronização.
Para Rafaela, esse processo está diretamente ligado à experiência e à vivência. “Quando você viaja ou visita lugares, como o caso do Nordeste, por exemplo, você encontra o artesanato, a cerâmica, a renda e os materiais naturais como expressões vivas de identidade e permanência. Esses objetos ajudam à contar as histórias dos próprios moradores. Isso muda completamente a forma de pensar a casa”, afirma.
A arquiteta também lembra que esse fenômeno dialoga com transformações amplas na arquitetura contemporânea, especialmente após a pandemia, quando a relação das pessoas com o lar se intensificou. A casa passou a ser percebida como espaço que precisa refletir identidade, conforto e pertencimento, mais que seguir tendências pré estabelecidas.
“É muito mais sobre mergulhar no processo junto ao cliente, entender sua história e traduzir isso no espaço, do que aplicar referências aleatórias. As tendências estão perdendo espaço para a identidade, e esse é um movimento que ainda está em construção”, conclui Rafaela.

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