Capa | Autorretrato Raphael Galvez
“Essa história de minha vida não tem começo e nem tem fim. Ela começa por acaso e não tem fim, porque depois de morto, a minha história continua, pois ela está ligada a tudo e a todos”. É dessa forma que o escultor, pintor e desenhista Raphael Galvez (1907-1998) introduz sua Autobiografia, escrita dez anos antes de sua morte. Publicada pela editora Martins Fontes, a obra, com 272 páginas, chega às livrarias em dezembro.
Embora já tivessem sido divulgados alguns trechos dessa Autobiografia nos três livros anteriores, que retratam a trajetória e trabalhos do artista, essa é a primeira vez que se faz uma publicação completa de sua história.
Organizada por José Armando Pereira da Silva, a obra é dividida em 25 capítulos que trazem as memórias e confissões de Galvez, evidenciando a candura do seu protagonista. “Quando o Orandi Momesso me confiou a tarefa de prepará-la e me passou as 356 páginas, entrei logo na leitura e me envolvi nesse fluxo que, além de revelar uma vida dedicada à arte e um caráter que se expõe com desarmadoras franqueza e simplicidade, evoca flagrantes, lugares e personagens que compuseram a trama viva de uma época”, explica José Armando.
Com um texto simples, a autobiografia de Galvez é um documento que acentua a dimensão relacional de sua vida. Não é a história apenas do artista, e sim de uma pessoa, do ser humano que era Galvez. É um testemunho de relações sociais em que ele se apresenta como um aprendiz da arte, face a outros contemporâneos do ciclo que frequentava ou, talvez, almejasse. “As figuras que aparecem nas histórias de minha vida são os marcos do meu relacionamento com o meio em que vivi”, escreve Galvez em um dos trechos.
A publicação da Autobiografia, que estava sob a guarda de Orandi Momesso, aporta novos elementos para a narrativa histórico-crítica da carreira de Raphael Galvez, que guardam a autenticidade e sinceridade de sua própria voz. Nas palavras de José Armando Pereira, “não é a voz de um erudito, mas reflete a vivência, em tempos e circunstâncias determinadas, de um homem de caráter reto e puro, consagrado inteiramente à arte. Ele alcançou aquele estágio em que se desmancham os limites ou separação entre o ofício e a vida – isso que na vida religiosa se chama de vocação.”
Para falar sobre essa vocação e como ela responde a um momento histórico da arte brasileira, José Armando convidou o escritor e sociólogo José de Souza Martins que aceitou prefaciar a autobiografia. Martins, que já nutria uma admiração pelo artista quando escreveu sobre “Os anjos do operário Galvez” em sua coletânea de crônicas O coração da pauliceia ainda bate (Imprensa Oficial/Unesp, 2017), ampliou sua análise abordando a posição representada por Galvez e assinalando os significados de sua obra no contexto do modernismo.
“No clima de celebrações do centenário da Semana de Arte Moderna e de justa exaltação da criativa minoria que protagonizou o advento e a disseminação do Modernismo em São Paulo, a Autobiografia de Galvez ganha a significativa importância que podem ter suas revelações na comparação que possamos fazer com a biografia de outros artistas com os quais o artista conviveu como Volpi, Tarsila do Amaral e Flávio de Carvalho. Não só pelas peculiaridades de sua obra, mas também pelo singular da relação entre sua biografia e sua arte”, ressalta José Martins. “Suas esculturas, pinturas e desenhos são as evidências mais significativas de que a renovação da arte, entre nós, dependeu muito da prontidão criativa de gente, como ele, capaz de compreender e viabilizar as necessidades expressionais de uma época convulsionada da história, prenhe de carência do novo”, conclui o escritor.
No livro, a reprodução das esculturas e pinturas seguem fielmente a escolha de Galvez, indicando a vontade de destacar os trabalhos mais significativos de sua carreira. “Procuramos manter a maioria das ilustrações sugeridas por Galvez na forma dos originais, com os comentários feitos por ele. São reproduções de obras clássicas – especialmente esculturas – que ele via como fontes de inspiração”, ressalta José Armando.
Para além das histórias de uma vida e reproduções de suas principais obras, Galvez também se apresenta como um inspirado escritor e seus escritos evidenciam o ser humano e artista que ali estava. Entre versos e epígrafes, ele revela:
“Como é bom ter a tranquilidade de poder errar
A única esperança de conseguir acertar
E conquistar a capacidade de se libertar
E nunca inibido ou complexado ficar.”
O artista
Raphael Galvez passou grande parte da sua vida dividido entre as pinturas, desenhos e esculturas que realizava por puro prazer, e as esculturas tumulares e projetos para monumentos, que lhe rendiam dinheiro para o sustento próprio e de seus irmãos.
Acolhido pelo Grupo Santa Helena, associação de artistas fundado em 1934, Galvez foi parceiro de ateliê de Mário Zanini. O pintor construiu sua obra a partir dessa experiência, que o levou a aplicar-se em intermináveis sessões de modelo vivo e a observar com curiosidade as variadas manifestações artísticas realizadas pela cidade.
Em meados dos anos 1950, seu trabalho foi integrado a duas mostras panorâmicas: 50 anos de paisagem brasileira, apresentada no Museu de Arte Moderna por Sérgio Milliet, e Exposição do Retrato Moderno, montada no Parque Ibirapuera. Neste momento, suas obras foram exibidas junto não apenas às do Santa Helena, mas às dos modernistas - o que marca um inequívoco reconhecimento de seu trabalho pelo circuito e pela crítica.
A partir da década de 1960, Galvez passa a viver em prolongado recolhimento, ao dar depoimentos sobre seus contemporâneos e participar de mostras dedicadas aos anos de 1940.
O artista ganhou uma série de exposições próprias retrospectivas. A mais extensa delas, que contou com a curadoria da historiadora Vera D’Horta, ocorreu em 1999, no ano seguinte ao de sua morte, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Título: Autobiografia
Autor: Galvez, Raphael
Organização: José Armando Pereira da Silva
Prefácio: José de Souza Martins
Editora: Martins Fontes (272, páginas)
Ano: 2022
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