“Se a pessoa chegou na vida adulta sem diagnóstico, não é autismo de verdade.” “Fazer avaliação neuropsicológica é só para crianças.” “O laudo vai rotular e limitar a vida da pessoa.” Frases como essas ainda circulam em conversas do dia a dia, redes sociais e até em ambientes de saúde, mas escondem uma realidade cada vez mais comum: milhões de adultos descobrem o autismo ou o TDAH somente depois dos 30, 40, 50 anos.
Só no Brasil, 2,4 milhões de pessoas têm algum transtorno do espectro autista, segundo o Mapa Autismo Brasil. A pesquisa, que ouviu 23.632 pessoas de todos os estados, mostrou que a maioria dos diagnósticos ainda ocorre antes dos 17 anos, deixando uma grande população de adultos sem identificação adequada. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que buscam avaliação neuropsicológica em busca de explicações para dificuldades antigas.
“O laudo não limita: ele explica e abre caminho.” A frase é da psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Abaixo, ela desmonta mitos comuns sobre diagnóstico tardio de autismo e TDAH.
Mito: “Se chegou na vida adulta sem diagnóstico, não é autismo de verdade”
Verdade: O autismo e o TDAH são condições do neurodesenvolvimento que se manifestam desde a infância, mas podem passar despercebidos por décadas, especialmente em pessoas com nível 1 de suporte, o chamado “autismo leve” ou antiga síndrome de Asperger.
“O problema não é o autismo não existir, e sim a sociedade não ter olhado para ele durante muito tempo”, explica a Dra. Luanda. “Muitos adultos cresceram ouvindo que eram ‘estranhos’, ‘tímidas demais’, ‘intensas demais’, mas nunca tiveram acesso a uma avaliação adequada.”
Mito: “Diagnóstico na vida adulta não serve para nada, já é tarde demais”
Verdade: O diagnóstico tardio permite intervenções mais adequadas e eficazes no manejo dos sintomas, além de promover autoconhecimento, adaptação e planejamento de vida. Estudos mostram que, apesar de tardio, o diagnóstico é importante na idade adulta, pois permite acesso a tratamentos e apoio adequados.
“É comum ouvir relatos de alívio. Não porque a pessoa tenha se tornado alguém diferente, mas porque finalmente encontra uma explicação para experiências que a acompanharam durante toda a vida”, diz a Dra. Luanda. “Mas também há luto. Luto por um diagnóstico que não veio antes, por tratamentos que poderiam ter sido diferentes, por uma infância que poderia ter sido mais compreendida.”
Mito: “Fazer avaliação neuropsicológica é só para crianças”
Verdade: A avaliação neuropsicológica para adultos é um processo que investiga as funções cognitivas, emocionais e comportamentais de uma pessoa para identificar possíveis déficits ou dificuldades. É fundamental para compreender como o cérebro está funcionando e elaborar o melhor tratamento.
“Mais do que observar comportamentos atuais, o especialista procura compreender como essa pessoa se desenvolveu desde a infância e de que forma essas características influenciaram sua vida”, explica a Dra. Luanda. “O diagnóstico depende de uma avaliação clínica cuidadosa. O autismo não pode ser identificado por listas encontradas na internet ou por comparações feitas nas redes sociais.”
Mito: “O laudo vai rotular a pessoa e limitar as oportunidades”
Verdade: O laudo não é um rótulo, mas uma ferramenta de direitos, adaptações e autoconhecimento. Pela Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana), pessoas com TEA têm direitos garantidos em educação, saúde, trabalho e previdência social.
“O laudo não é uma sentença. É um documento que explica como aquela pessoa funciona e abre caminho para adaptações no trabalho, na escola, nos relacionamentos”, afirma a Dra. Luanda. “Ele não diz o que você não pode fazer. Ele ajuda a entender como você pode fazer de um jeito que funcione melhor para você.”
Quando o diagnóstico dos filhos leva ao dos pais
Um fenômeno cada vez mais comum é o de pais e mães que descobrem o autismo ou o TDAH ao levar os filhos para avaliação. Estudos indicam que mais de 90% dos casos de autismo têm origem genética, o que explica a recorrência de traços do transtorno em famílias.
“Muitas pessoas só descobrem o transtorno depois de perceber que muitos dos comportamentos dos filhos também faziam parte da própria vida”, relata a Dra. Luanda. “É comum ouvir: ‘Se esses meninos são autistas, você também é’.”
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