Cochilos programados, menos reuniões, sono de qualidade e meditação fazem parte da rotina de líderes de grandes empresas. Especialista explica por que a ciência apoia essas estratégias e como qualquer profissional pode adaptá-las ao dia a dia.
Durante muitos anos, o modelo de sucesso no mundo corporativo esteve associado a jornadas intermináveis, poucas horas de sono e disponibilidade permanente para responder mensagens. Hoje, esse paradigma começa a mudar. Em empresas lideradas por alguns dos CEOs mais bem-sucedidos do mundo, hábitos como cochilos durante o expediente, bloqueio de horários para concentração, redução de reuniões e proteção do sono passaram a fazer parte da estratégia de gestão.
Segundo o psiquiatra Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental no ambiente corporativo, essas mudanças refletem um entendimento cada vez mais consolidado pela ciência: o cérebro não foi feito para permanecer em estado permanente de alerta.
"A produtividade sustentada não depende de trabalhar mais horas, mas de preservar a capacidade do cérebro de tomar boas decisões. Quando o profissional vive em sobrecarga constante, perde qualidade de raciocínio, criatividade, memória e equilíbrio emocional. O resultado costuma ser justamente o oposto da alta performance", afirma.
Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a reconhecer oficialmente o burnout como fenômeno ocupacional na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), cresceu também o interesse de empresas por estratégias capazes de reduzir o esgotamento sem comprometer resultados.
Para o especialista, muitas práticas adotadas por grandes executivos podem servir de inspiração para profissionais de qualquer nível hierárquico — desde que sejam adaptadas à realidade de cada pessoa.
Cinco hábitos que ganharam espaço entre CEOs — e o que a psiquiatria diz sobre eles
1. Cochilos curtos aumentam o estado de alerta
Scott Kirby, CEO da United Airlines, tornou pública sua rotina de cochilos de aproximadamente 20 minutos durante a tarde.
Segundo Dr. Daniel Sócrates, cochilos breves realmente podem melhorar o desempenho cognitivo quando feitos de maneira adequada.
"Um descanso de 10 a 20 minutos ajuda o cérebro a recuperar atenção e concentração sem entrar nas fases profundas do sono. Isso reduz a fadiga mental e melhora o desempenho nas atividades seguintes."
2. Menos e-mails e proteção do início da manhã
Brian Chesky, CEO do Airbnb, reduziu drasticamente o uso de e-mails e evita reuniões nas primeiras horas do dia.
Para o psiquiatra, essa estratégia faz sentido porque as interrupções constantes impedem o cérebro de entrar em estado de concentração profunda.
"Cada notificação exige uma nova adaptação da atenção. Quando isso acontece dezenas de vezes ao longo do dia, aumenta a sensação de sobrecarga e diminui a capacidade de concluir tarefas complexas."
3. Bloquear horários sem reuniões melhora a qualidade das decisões
Executivos como Bob Jordan (Southwest Airlines) e Jensen Huang (NVIDIA) reservaram períodos inteiros da agenda para reflexão estratégica.
Segundo Dr. Daniel Sócrates, agendas excessivamente fragmentadas aumentam a chamada fadiga de decisão.
"Estar ocupado não significa necessariamente ser produtivo. O cérebro precisa de períodos contínuos de concentração para resolver problemas complexos. Reuniões sucessivas consomem energia cognitiva antes mesmo do trabalho realmente importante começar."
4. Dormir bem é uma ferramenta de liderança
Jeff Bezos afirma que prioriza oito horas de sono para tomar decisões de maior qualidade.
De acordo com o psiquiatra, essa talvez seja uma das estratégias com maior respaldo científico.
"Durante o sono, o cérebro consolida memórias, reorganiza informações e restaura funções importantes do córtex pré-frontal, região responsável por planejamento, julgamento e controle emocional. Dormir pouco compromete justamente as habilidades mais exigidas de quem ocupa cargos de liderança."
5. Meditação ajuda o cérebro a responder melhor sob pressão
Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, pratica meditação diariamente há décadas. Segundo Dr. Daniel Sócrates, técnicas de atenção plena vêm demonstrando benefícios consistentes na redução do estresse.
"A meditação não elimina problemas, mas melhora a forma como o cérebro reage a eles. Pessoas que praticam regularmente tendem a apresentar menor impulsividade, melhor regulação emocional e maior clareza para tomar decisões sob pressão."
Embora as rotinas desses executivos despertem curiosidade, o psiquiatra faz um alerta: copiar hábitos isolados dificilmente produz resultados se a cultura de trabalho continuar baseada em excesso de cobrança e disponibilidade permanente.
"Não existe fórmula universal para alta performance. O que existe é um princípio comum: cuidar do cérebro antes que ele entre em colapso. Cada pessoa pode encontrar estratégias diferentes, mas todas passam por respeitar limites fisiológicos básicos, como sono, pausas, foco e recuperação mental." Segundo ele, o maior erro ainda é acreditar que cuidar da saúde mental representa perda de produtividade.
"Na prática acontece exatamente o contrário. Profissionais mentalmente saudáveis tomam melhores decisões, erram menos, lidam melhor com conflitos e conseguem manter um desempenho elevado por muito mais tempo."
Para Dr. Daniel Sócrates, o conceito de alta performance vem passando por uma transformação importante no ambiente corporativo.
"O futuro do trabalho não será vencido por quem suporta mais sofrimento, mas por quem consegue preservar energia, clareza mental e capacidade de adaptação ao longo dos anos. O cérebro deixou de ser apenas o instrumento do trabalho. Ele passou a ser o principal ativo de qualquer profissional."
Sobre Dr. Daniel Sócrates Link
Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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