Psicóloga Valeska Magaldi reúne experiência clínica e orientação a pacientes em “Segunda-feira eu começo”, com lançamento em 10 de novembro, em São Paulo
A perda de controle diante da comida, seguida de culpa, vergonha e novas restrições alimentares, pode comprometer a saúde e interferir nos relacionamentos e na vida profissional. Frequentemente confundida com exagero à mesa ou falta de disciplina, a compulsão alimentar exige avaliação especializada e uma abordagem que considere os aspectos físicos, psicológicos e sociais envolvidos no comportamento.
Esse é o tema de "Segunda-feira eu começo: a dor da compulsão alimentar e o caminho real para sair dela". primeiro livro da psicóloga Valeska Bassan Magaldi, publicado pela EV Publicações. O lançamento está marcado para 10 de novembro de 2026, às 19h, no Vila Hermosa Bistrô, na Rua Clodomiro Amazonas, 858, Vila Nova Conceição, em São Paulo. Voltada a pessoas que convivem com o problema, familiares e profissionais de saúde, a obra discute o ciclo de perda de controle, culpa e restrição, aproximando o conhecimento clínico das dificuldades vividas no cotidiano.
Os números e os impactos do transtorno
Um estudo publicado em 2022 na revista científica "Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology" identificou prevalência de 1,4% de transtorno de compulsão alimentar entre 2.297 moradores de 18 a 60 anos da cidade do Rio de Janeiro. O levantamento, com dados coletados entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020, também registrou 6,2% de compulsão alimentar recorrente, categoria mais ampla que não corresponde, necessariamente, ao diagnóstico completo do transtorno. Por seu recorte geográfico, esses percentuais não constituem uma estimativa para todo o Brasil.
A pesquisa encontrou maior frequência de ansiedade e depressão entre participantes com esses problemas alimentares. Nos casos de transtorno de compulsão alimentar ou bulimia, foram observados prejuízos no trabalho ou nos estudos, nas relações sociais e na vida familiar. Menos da metade dessas pessoas havia procurado tratamento.
De acordo com Valeska, a distinção entre um excesso ocasional e um episódio compulsivo passa principalmente pela experiência de não conseguir interromper ou controlar o consumo. “O sinal de alerta não está apenas na quantidade de comida, mas principalmente na frequência dos episódios, na perda de controle e no sofrimento que acompanha esse comportamento”, afirma.
Comer depressa, continuar mesmo sem fome, esconder-se durante as refeições e apresentar culpa ou vergonha depois são manifestações que merecem atenção. A avaliação diagnóstica considera diferentes critérios, entre eles a ocorrência de episódios, em média, pelo menos uma vez por semana durante três meses. O sofrimento associado à alimentação já é motivo para buscar ajuda, sem esperar que essa frequência ou duração seja atingida.
Alimentação, emoções e restrição
A relação entre ultraprocessados e comportamento alimentar também tem mobilizado pesquisadores. Publicado em 2026 na revista "Archives of Endocrinology and Metabolism", um estudo de pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo e colaboradores avaliou 77 adultos com obesidade em São Paulo. O maior consumo desses produtos esteve associado a pontuações mais altas de sintomas de compulsão e bulimia, além de alimentação emocional e descontrolada.
Como o trabalho avaliou consumo e sintomas em um mesmo período, seus resultados não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito. A amostra também não representa a população brasileira. O achado contribui para a investigação do tema, mas não explica isoladamente o desenvolvimento da compulsão alimentar.
Para Valeska, compreender o problema requer atenção à história e às circunstâncias de cada pessoa. “Precisamos compreender não apenas o que a pessoa come, mas como ela come, em quais circunstâncias e, principalmente, o que está acontecendo emocionalmente”, diz.
Dietas muito restritivas podem contribuir para a manutenção dos episódios. As diretrizes do instituto britânico NICE recomendam trabalhar a regularidade das refeições e orientar pacientes a evitar tentativas de emagrecimento por meio de dietas durante o tratamento da compulsão, pelo risco de favorecer novos episódios. A prioridade é reduzir o sofrimento e melhorar o comportamento alimentar, considerando individualmente as demais necessidades de saúde.
Uma trajetória dedicada ao cuidado e à formação
A experiência profissional de Valeska combina atendimento clínico e atividades de ensino sobre transtornos alimentares. O Instituto Freedom, onde integra o corpo docente de um curso sobre o tema, apresenta a psicóloga como especialista em Terapia Sistêmica do Indivíduo, Casal e Família, com formação em transtornos alimentares e atuação voluntária no Ambulim/USP.
Informações publicadas sobre o lançamento do livro registram mais de 15 anos de prática clínica com transtornos alimentares e obesidade, incluindo 13 anos no Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Sua participação na divulgação de conhecimento sobre o assunto também está documentada no site do psiquiatra Táki Cordás, que publicou uma conversa com ela sobre a história dos transtornos alimentares.
O livro leva essa experiência ao debate sobre o sofrimento que envolve a alimentação e sobre os caminhos de cuidado. Para a autora, o transtorno não decorre de uma causa única: fatores biológicos, psicológicos, emocionais e sociais podem se combinar de maneiras diferentes em cada pessoa.
Valeska explica que, em algumas situações, a comida passa a cumprir uma função de alívio diante de estresse, tristeza, solidão ou angústia. Esse efeito costuma ser passageiro e pode dar lugar à culpa. Experiências traumáticas, dificuldades para lidar com emoções, insatisfação corporal, preconceito e pressão para emagrecer também precisam ser considerados na avaliação. Os episódios, ressalta, não se limitam a um tipo específico de alimento e podem envolver o que estiver disponível naquele momento.
Na prática clínica, a psicóloga observa que a insatisfação com o corpo frequentemente antecede tentativas de controle rígido da alimentação. A pessoa elimina alimentos de que gosta, permanece longos períodos sem comer e estabelece regras difíceis de sustentar. Quando ocorre a perda de controle, a sensação de fracasso pode estimular uma nova restrição, ainda mais intensa. “É importante entender que a compulsão alimentar não é simplesmente uma questão de força de vontade”, afirma.
Os efeitos desse processo ultrapassam as refeições. Além de desconforto gastrointestinal e distensão abdominal, podem coexistir alterações do sono, de peso e problemas metabólicos, que exigem avaliação individual. No campo emocional, a preocupação com o que foi consumido, com a próxima refeição ou com tentativas de compensar os excessos pode ocupar grande parte do dia.
A autoestima também pode ser prejudicada. Segundo Magaldi, sentimentos de incapacidade e insatisfação corporal podem se somar ao receio de ser observado ou julgado. Com isso, encontros sociais, festas e refeições em família passam a ser evitados. No trabalho, o sofrimento emocional e a dificuldade de concentração podem comprometer o bem-estar e o desempenho.
A vergonha contribui para que muitas pessoas escondam os episódios, atrasando a busca por atendimento. A psicóloga ressalta que o peso corporal, isoladamente, não permite identificar quem precisa de cuidado. “Uma pessoa não precisa estar acima do peso para sofrer com a compulsão alimentar. O sofrimento não pode ser medido pela balança”, destaca.
Tratamento e apoio familiar
O acompanhamento psicológico busca compreender as circunstâncias que favorecem os episódios, a maneira como a pessoa lida com suas emoções e a relação construída com a alimentação e com o corpo. O trabalho também envolve identificar gatilhos, reduzir comportamentos restritivos e desenvolver outras formas de enfrentar situações difíceis.
“O tratamento psicológico não se resume a ensinar a pessoa a comer menos ou a controlar o que coloca no prato”, explica Valeska. A proposta é reduzir os episódios e o sofrimento, com atenção à história e às necessidades de cada paciente.
Em muitos casos, o cuidado envolve uma equipe multiprofissional. Nutricionistas especializados em transtornos alimentares auxiliam na reorganização da alimentação, enquanto médicos e psiquiatras avaliam condições clínicas, transtornos associados e a eventual necessidade de medicamentos. “O objetivo inicial do tratamento não deve ser simplesmente o emagrecimento, mas a melhora da relação com a comida, a redução dos episódios e do sofrimento psicológico”, afirma a psicóloga.
A participação da família pode favorecer esse processo, desde que o apoio não se transforme em fiscalização. Comentários que atribuem o problema à falta de vontade ou que determinam o que a pessoa deveria comer tendem a ampliar a vergonha e a sensação de incapacidade. A orientação da especialista é oferecer escuta e acolhimento, evitando julgamentos e cobranças.
“A melhor forma de ajudar é oferecer acolhimento, escuta e apoio, sem transformar a alimentação em um espaço de vigilância e cobrança”, diz. Para a autora, reconhecer o sofrimento é parte essencial da mudança: “Ninguém escolhe sofrer com a comida”.
Serviço:
Lançamento de "Segunda-feira eu começo: a dor da compulsão alimentar e o caminho real para sair dela"
Autora: Valeska Bassan Magaldi
Editora: EV Publicações
Data: 10 de novembro de 2026, às 19h
Local: Vila Hermosa Bistrô
Endereço: Rua Clodomiro Amazonas, 858, Vila Nova Conceição, São Paulo
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