
Autor que conquistou milhões de leitores com poemas compartilhados nas redes comenta pesquisa que aponta aumento da leitura entre usuários de formatos digitais e dá dicas para criar o hábito
Durante anos, a recomendação para quem queria ler mais era simples: desligar o celular, afastar as distrações e abrir um livro. Mas o comportamento do leitor mudou e os dados mais recentes mostram que a própria tela pode estar ajudando a aproximar brasileiros da literatura.
Uma pesquisa da Nielsen BookData, divulgada nesta quarta-feira (2), aponta que cerca de 18 milhões de brasileiros passaram a ler mais depois de aderirem aos formatos digitais. Entre os leitores de e-books, 43% afirmam ter passado a ler “muito mais”; entre os consumidores de audiobooks, o índice chega a 45%.
O levantamento, realizado pela Nielsen BookData e viabilizado pelo Skeelo, ouviu 3 mil brasileiros de diferentes classes socioeconômicas, gêneros e regiões do país. A pesquisa também revela que as redes sociais se tornaram importantes pontos de descoberta de livros: entre os leitores de e-books, 27% buscam informações sobre livros no Instagram, o mesmo percentual registrado no YouTube, enquanto 23% recorrem ao TikTok. Entre consumidores de audiobooks, os índices são de 27%, 33% e 25%, respectivamente.
O cenário ajuda a entender a trajetória do escritor e poeta Augusto Branco, considerado um dos principais nomes da poesia aforística no mundo. Muito antes de os conteúdos literários curtos se tornarem parte da rotina das redes sociais, o autor utilizava a internet para publicar poemas e reflexões que podiam ser lidos em poucos segundos e que acabaram compartilhados por milhões de pessoas.
Seus versos circularam entre artistas, apresentadores, influenciadores e leitores anônimos, fazendo com que a poesia chegasse a públicos que talvez não procurassem espontaneamente um livro de poemas. A estratégia, ainda que não tenha começado como uma fórmula para formar leitores, criou uma relação diferente entre literatura e cotidiano: o leitor podia encontrar um poema no meio da navegação pelas redes e, em poucos segundos, ter contato com uma experiência literária.
Para Augusto, esse primeiro contato pode ser importante principalmente para quem acredita não ter tempo para ler. “Nem sempre é preciso começar lendo dezenas de páginas. Uma frase, um poema ou uma crônica podem ser o primeiro passo. O importante é criar uma relação de prazer e curiosidade com a leitura”, afirma o autor.
Como começar a ler mais, segundo Augusto Branco:
A trajetória do poeta na internet também ajuda a pensar em maneiras mais simples de incorporar a leitura à rotina.
Comece pequeno.
Quem não tem o hábito de ler pode começar com poemas, crônicas e contos. Textos curtos reduzem a sensação de que é preciso reservar muito tempo para a leitura.
Aproveite os intervalos.
Alguns minutos esperando uma consulta, durante uma pausa ou no transporte podem ser suficientes para ler algumas páginas. A constância pode ser mais importante do que a quantidade.
Use as redes para descobrir autores.
Perfis de escritores e criadores de conteúdo literário podem funcionar como uma porta de entrada. Um texto encontrado no Instagram, TikTok ou YouTube pode despertar a curiosidade por uma obra completa.
Escolha assuntos que realmente interessem.
Não existe uma única maneira correta de começar. Romance, poesia, suspense, biografia, história, crônica ou não ficção podem despertar o hábito, desde que exista identificação com o tema.
Experimente diferentes formatos.
Livro físico, e-book e audiobook não precisam competir entre si. Cada formato pode ocupar um espaço diferente na rotina.
Não transforme a leitura em obrigação.
Estabelecer metas muito grandes pode fazer com que o hábito seja abandonado. Cinco ou dez páginas por dia já podem representar um começo.
A relação de Augusto Branco com textos curtos na internet não significa que sua literatura tenha permanecido limitada a esse formato. Depois de conquistar milhões de leitores com seus poemas, o autor inicia uma nova fase com o romance A Samira e o Deserto.
A obra, escrita ao longo de cerca de três décadas, acompanha a amizade entre um menino e um misterioso paisagista conhecido como “Velho das Areias”. A narrativa aborda temas como luto, amizade, amadurecimento, empatia, preservação ambiental e reconstrução depois das perdas.
O romance também representa uma mudança de escala para um autor que ficou conhecido justamente pela capacidade de condensar sentimentos e reflexões em poucas linhas. A sensibilidade presente em sua poesia passa agora para uma narrativa de ficção mais extensa.
“Escrever sempre foi minha forma de compreender a vida. Em A Samira e o Deserto, cada página carrega um pouco das perguntas que todos nós fazemos sobre amor, dor, esperança e recomeços”, afirma Augusto.
A mudança no comportamento do público ocorre em paralelo à expansão do mercado editorial brasileiro. No acumulado de 2026, foram vendidos 35,6 milhões de exemplares, com faturamento de R$ 1,89 bilhão — altas de 10,2% e 12,7%, respectivamente, em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Painel do Varejo de Livros no Brasil, realizado pela Nielsen BookData e divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).
Os números indicam que a relação entre tecnologia e leitura pode ser menos de disputa e mais de transformação. A mesma tela que concentra vídeos, mensagens e redes sociais também pode apresentar um poema, indicar um autor, permitir o download de um e-book ou reproduzir um audiobook.
A trajetória de Augusto Branco representa justamente essa mudança: a literatura saiu das páginas e passou a encontrar o leitor também no meio da rotina digital. Para quem ainda não tem o hábito de ler, talvez o caminho não precise começar longe do celular, mas pode começar justamente com algumas linhas dentro dele.
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