Em “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo”, autora paranaense de 68 anos acompanha Betina e Mariana em uma narrativa fragmentada sobre liberdade, indiferença, desigualdade e a urgência de viver
Em seu primeiro romance solo, "Ratos e estrelas habitam o mesmo universo", publicado pela Editora Patuá, Ivy Menon (@menon_ivy) coloca duas jovens, Betina e Mariana, diante de um mundo marcado pela violência, pelas desigualdades e pela indiferença.
Inspirada pelo conceito camusiano do "homem absurdo", a autora constrói uma narrativa em que as personagens se recusam à resignação e escolhem experimentar a vida intensamente, sem esperança ou ilusão.
Lançado na última Bienal do Livro de São Paulo, o romance se organiza a partir de quatro eixos: o absurdo existencial, a violência estrutural e doméstica, o corpo e o desejo como territórios de liberdade e a desigualdade de classe. Esta última aparece também na imagem que dá título ao livro: os ratos representam os invisíveis, os meninos da rua, enquanto as estrelas remetem aos que ocupam posições privilegiadas.
Outra linha que atravessa "Ratos e estrelas habitam o mesmo universo" é a literatura beat. O romance dialoga com Ginsberg e Kerouac. A estrutura não linear e caótica, a linguagem fragmentária, os bares, a sinuca, a música, as drogas, o sexo e a errância urbana aproximam Betina e Mariana daquela tradição de personagens à margem que fazem da própria vida um gesto de recusa. Não se trata de imitação, mas de respiração: a mesma urgência de capturar o agora, a mesma desconfiança do aceito, a mesma mistura de gozo e desencanto. Como escreve Ginsberg no trecho que ecoa no livro: "Maquinaria de um sonho elétrico das massas! A Prostituta da Babilônia criadora de guerras vociferava Capitólios e Academias! Dinheiro! Dinheiro! Dinheiro!" É nesse território que Ivy Menon constrói sua narrativa, sem abrir mão da própria voz e da experiência que a formou.
A escolha dos temas parte da trajetória da autora. Ivy cresceu se deslocando de fazenda em fazenda e de cidade em cidade pelo interior do Paraná. Aos 12 anos, mudou-se para Rancho Alegre, onde trabalhou como boia-fria, babá e empregada doméstica até os 20. Mais tarde, passou pelo jornalismo, pela polícia, pelo Judiciário e pela academia, experiências que, segundo ela, contribuíram para seu olhar sobre as estruturas de poder, a violência e as diferentes formas de ocupar o mundo.
Betina e Mariana tentam simplesmente "ser" em um mundo que insiste em classificá-las como "putas", "loucas" ou "rebeldes sem causa".
A autora começou a escrever o romance há mais de quatro anos e trabalhou o texto durante cerca de três, em um processo marcado por idas e vindas e pela necessidade de descer aos "porões" das personagens e aos seus próprios. Ivy define o romance como uma "carta de alforria", em que precisou matar "Elisabeth" para que "Betina" emergisse.
O romance não apresenta uma saída simples para o absurdo, mas uma possibilidade de resistência: recusar o suicídio e escolher viver, mesmo diante da falta de respostas.
Sobre a autora
Ivy Menon, 68 anos, nasceu em Cornélio Procópio (PR) e escreve poesia, crônicas e contos. Foi boia-fria até os vinte anos, período em que se aproximou da literatura por meio dos clássicos disponíveis nas bibliotecas da escola e da Prefeitura Municipal. É bacharel em Direito, com pós-graduação em Filosofia e Teoria do Direito, além de jornalista e teóloga. Mora em Rio Negro-PR.
Demais obras publicadas: Poesias — "Matemática das Algemas" (2021, Camino Editorial) e "Olhos de mandrágora" (2024, Editora Patuá); Crônicas — "Asas de terra e sangue" (2021, Editora Arribaçã); Romance — "Mar fechado Mar aberto", em parceria com Angela Zanirato (Rizoma Projetos Editoriais).
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