Conheça a história da Lucimar que, após 10 anos, descobriu a origem das suas dores na coluna no consultório odontológico.
Você sabia que dores nas costas, no pescoço e até enxaquecas podem ter relação com a boca? Estudos vêm associando alterações na articulação temporomandibular (ATM), mordida desalinhada, bruxismo e perdas dentárias a compensações posturais e quadros de dor crônica. Para quem convive com esses sintomas, incluir a saúde bucal na investigação pode ser a peça que faltava para um plano terapêutico mais efetivo.
Exemplo: um ensaio clínico com 60 adultos com disfunção temporomandibular (DTM) e dor cervical crônica, publicado na BioMed Research International, apontou benefício do uso noturno de placa oclusal— em três meses, a presença de dor cervical caiu de 39% para 8% no grupo tratado.
Por que isso acontece
Marcelo Kyrillos, cirurgião-dentista da clínica Ateliê Oral, em São Paulo, que acompanha casos em que queixas na coluna aparecem associadas a alterações bucais, explica que a mandíbula, o crânio e a coluna cervical formam um sistema integrado. Quando a mordida está desalinhada, quando há bruxismo ou quando a ATM funciona mal, a musculatura mastigatória e cervical passa a trabalhar de modo assimétrico. O corpo, então, compensa: projeta a cabeça à frente, eleva ombros, altera o tônus do trapézio e dos músculos do pescoço — padrões que podem acarretar dor no pescoço e nas costas em pessoas suscetíveis.
“Quando um histórico de tratamentos médicos e fisioterápicos repetidos para coluna só rende alívios parciais e temporários, a hipótese orofacial ganha peso e justifica avaliação funcional da oclusão e da ATM. Muitos pacientes chegam à clínica encaminhados por ortopedistas, neurologistas e otorrinolaringologistas após investigação inconclusiva, porque, em parte dos casos, os sintomas estão ligados à região orofacial. A ideia não é trocar uma causa por outra, e sim ampliar o olhar clínico para o complexo crânio–pescoço–mandíbula, um sistema integrado por músculos, articulações e vias neurais”, completa.
Caso real
"Você não deveria nem conseguir mexer os braços". A frase, ouvida de um ortopedista após o diagnóstico de hérnia e de graves problemas na coluna, marcou a empresária e agrônoma Lucimar Candido, de 53 anos. Durante dez anos, ela conviveu com dores constantes na coluna, na mandíbula e no pescoço. Em algumas crises, a coluna travava a ponto de deixá-la imóvel, tornando necessário o uso de medicação para controlar a dor.
A reviravolta veio quando procurou um dentista com queixas, entre elas dores também faciais. O que parecia um problema odontológico revelou uma descompensação significativa entre as arcadas dentárias, causada pela perda de dentes. A empresária também apresentava o maxilar e a mandíbula posicionados para trás, o que comprometia a mordida e favorecia um desequilíbrio postural com repercussão ao longo da coluna.
O tratamento envolveu correção esquelética e oclusal (mordida), implantes para repor dentes ausentes na arcada inferior — que serviram de ancoragem e suporte à nova mordida —, cirurgia para reposicionar os ossos da face e corrigir a desarmonia esquelética, além de reabilitação da função mastigatória e outros procedimentos. “Foi um processo de um ano, conduzido por uma equipe de especialistas em odontologia da clínica. Os procedimentos eliminaram as dores na coluna e no pescoço. Hoje a minha dor é imperceptível”, conta.
Causas, sintomas e tratamento
Kyrillos, responsável pelo diagnóstico e pelo tratamento de Lucimar, aponta alguns sinais que podem sugerir a relação entre boca e coluna. Entre eles dor de cabeça frequente e enxaquecas que pioram ao mastigar, bocejar ou falar; estalos ou dor ao abrir a boca e mastigar; rigidez no trapézio, no pescoço e nos ombros; desconforto lombar sem causa aparente; postura desalinhada, com a cabeça projetada para frente ou ombros elevados, além de um histórico de tratamentos repetidos para a coluna, com alívio apenas parcial e temporário.
Entre as doenças bucais que podem repercutir sobre a coluna destacam-se a disfunção da ATM — articulação que conecta a mandíbula ao crânio e pode interferir no equilíbrio muscular e postural; o bruxismo — que sobrecarrega músculos da face e do pescoço; a mordida desalinhada — que gera forças mastigatórias irregulares e favorece compensações posturais; e as perdas dentárias — que desbalanceiam a mastigação e podem contribuir para sobrecarga muscular e desequilíbrios na postura.
Segundo o especialista, em muitos casos, como de Lucimar, o tratamento exige restabelecer a estrutura adequada da mordida e pode envolver ortodontia, reabilitação oral (podendo ser necessário restaurar dentes desgastados ou perdidos), implantodontia (para recuperar pontos de apoio essenciais na mastigação e o equilíbrio oclusal, periodontia ou, em casos mais complexos, a chamada cirurgia ortognática (para corrigir a base estrutural que causava a má oclusão e a sobrecarga na ATM). Ele recomenda ainda a integração do tratamento odontológico com terapias adjuntas, como fonoaudiologia e fisioterapia cérvico-craniomandibular.

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