A autora
Kiyoko Murata nasceu em 1945 em Yahata, província de Fukuoka. Antes de lançar-se como escritora, explorou ocupações diversas. Sua carreira literária teve início em 1977 com o conto “Suichu no koe” [Voz sob a água], pelo qual ganhou o Prêmio Literário do Festival de Arte de Kyushu.
Ela foi agraciada com diversos prêmios ao longo de sua carreira, entre eles, o Akutagawa em 1987 por Nabe no naka [No caldeirão] — obra que inspirou o filme Rapsódia em agosto, de Akira Kurosawa, de 1991 —; o Prêmio Yasunari Kawabata em 1998 por Bocho [Chama-marés]; o Prêmio Noma em 2010 por Kokyo no wagaya [Família e origens]; e, em 2014, foi a vez de Mulher de prazer conquistar o Prêmio Yomiuri. Seu romance Warabinoko [Ida a Warabino], de 1994, foi também adaptado para o cinema por Hideo Onchi em 2003.
Em reconhecimento à sua contribuição para a literatura, Murata foi condecorada com a Medalha da Fita Púrpura e com a Ordem do Sol Nascente. Em 2017, foi eleita membro da Academia de Artes do Japão.
Trechos
“As garotas tinham muitas coisas a aprender. Entre elas, as técnicas sexuais eram consideradas habilidades imprescindíveis para a sobrevivência das mulheres, então, todos os dias, depois de terminarem o café da manhã, arrumarem a cozinha, fazerem a limpeza e lavarem as roupas, elas recebiam um treinamento intensivo no terceiro andar do bordel até o início da tarde.” [p. 18]
“As garotas soluçavam baixinho e, enquanto Ichi olhava para o ideograma de “mãe”, que também fazia parte do ideograma de “mar”, em sua mente ela viu as ama, de corpos nus ainda mais pálidos do que os golfinhos, nadando juntas no mar iluminado pela luz alva do sol.” [p. 23]
“O que importava no momento era apresentar Ichi ao velho negociante. Para uma jovem prostituta, ter um octogenário como primeiro cliente era uma dádiva. Um homem mais velho que não forçasse uma prostituta na primeira vez era um parceiro enviado dos céus. A lembrança de uma primeira vez sem pressa, sem brutalidade, terna, se transformaria em uma luz em meio ao mar de sofrimento que ela atravessaria no futuro. Um velho assim era uma bênção. Mas como fazer Ichi compreender isso?” [p. 55]
“Enquanto ouvia, Ichi pensava na primavera vindoura. Desde que chegou ali, ela não conseguia pensar no amanhã. Não há um amanhã que possa trazer mais liberdade do que se tem hoje. Como estará sua vida nessa época? Ela fechou os olhos. Sentia que era arrastada para algum lugar. O amanhã estava em algum lugar adiante. O próximo ano, ainda mais longe.” [p. 94]
“Se as garotas que foram vendidas tivessem permanecido no interior, provavelmente passariam o resto de suas vidas sem escrever. Sem se preocupar em encontrar palavras que descrevessem as flores que observavam. Flores seriam flores. Pássaros, apenas pássaros. Árvores, apenas árvores. Uma existência à qual não seria necessário acrescentar mais palavras. Um mundo de certa forma sem erros, mas também sem sutilezas, sabor e profundidade.” [p. 156]
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