A força das mulheres em “Mulher de prazer”, romance vencedor do Prêmio Yomiuri - Joana D'arc

Destaque

17 setembro 2026

A força das mulheres em “Mulher de prazer”, romance vencedor do Prêmio Yomiuri


Por meio de uma escrita sensível e tocante, Murata desfia as múltiplas camadas da condição feminina em uma sociedade que naturalizava a exploração sexual de meninas adolescentes.


TÍTULO: Mulher de prazer

AUTORA: Kiyoko Murata

TRADUÇÃO: Karen Kazue Kawana

FORMATO: 14 x 21 cm / 320 páginas

ISBN: 978-85-7448-334-4

PREÇO: R$ 88,00

LANÇAMENTO: 13 DE Outubro/2026

 

Primeiros anos do século XX. Uma vila de pescadores na ilha de Iojima, na antiga província de Satsuma, ao sul do Japão, onde grandes tartarugas marinhas nadavam tranquilamente junto às ama — as mulheres que mergulhavam no mar para apanhar algas e mariscos. É desse cenário que Ichi Aoi, uma jovem de quinze anos, é arrancada para um bordel de alto prestígio no distrito de prazeres de Kumamoto, em Kyushu. Vendida pelos próprios pais — prática comum entre famílias que não viam outra saída para escapar da pobreza extrema —, ela é lançada em um mundo cujas regras desconhece.


E assim esta ficção histórica de Kiyoko Murata, autora vencedora do Prêmio Akutagawa, nos leva para dentro da casa de prazer Shinonome, onde Ichi passa a ser iniciada para sua vida como cortesã, aprendendo pouco a pouco como funcionam as dinâmicas de poder de um universo regido por sexo e dinheiro. Por meio de uma escrita sensível e tocante, Murata desfia as múltiplas camadas da condição feminina em uma sociedade que naturalizava a exploração sexual de meninas adolescentes. Esta não é, no entanto, uma narrativa que descamba para o melodrama; pelo contrário, somos encantados pela inocência e pela força de Ichi, seus percalços e sua rebeldia, e pelas sagazes e complexas personagens femininas que a cercam.

Kiyoko Murata não fez deste romance um manifesto. Mas também está longe de abandonar a crítica social. É no emaranhado de opressão e sobrevivência que surge a figura de Tetsuko, a professora da Escola das Mulheres do Ofício. Com sua determinação silenciosa, ela tenta, a seu modo, desafiar a estrutura machista do distrito de prazeres, ensinando às prostitutas que a instrução é a única chave para manter, mesmo dentro daquele cosmo, um fio de autonomia. E são essas lições — e a união que nasce entre as trabalhadoras — que levarão as mulheres do bordel a um ato de ousadia e resistência.


Há obras que encontram beleza justamente onde a vida parece mais cruel. Mulher de prazer é, acima de tudo, uma celebração sobre a capacidade humana de preservar a dignidade, criar vínculos e transformar a dor em força.

A autora


Kiyoko Murata nasceu em 1945 em Yahata, província de Fukuoka. Antes de lançar-se como escritora, explorou ocupações diversas. Sua carreira literária teve início em 1977 com o conto “Suichu no koe” [Voz sob a água], pelo qual ganhou o Prêmio Literário do Festival de Arte de Kyushu.

Ela foi agraciada com diversos prêmios ao longo de sua carreira, entre eles, o Akutagawa em 1987 por Nabe no naka [No caldeirão] — obra que inspirou o filme Rapsódia em agosto, de Akira Kurosawa, de 1991 —; o Prêmio Yasunari Kawabata em 1998 por Bocho [Chama-marés]; o Prêmio Noma em 2010 por Kokyo no wagaya [Família e origens]; e, em 2014, foi a vez de Mulher de prazer conquistar o Prêmio Yomiuri. Seu romance Warabinoko [Ida a Warabino], de 1994, foi também adaptado para o cinema por Hideo Onchi em 2003.

Em reconhecimento à sua contribuição para a literatura, Murata foi condecorada com a Medalha da Fita Púrpura e com a Ordem do Sol Nascente. Em 2017, foi eleita membro da Academia de Artes do Japão.

 


Trechos


“As garotas tinham muitas coisas a aprender. Entre elas, as técnicas sexuais eram consideradas habilidades imprescindíveis para a sobrevivência das mulheres, então, todos os dias, depois de terminarem o café da manhã, arrumarem a cozinha, fazerem a limpeza e lavarem as roupas, elas recebiam um treinamento intensivo no terceiro andar do bordel até o início da tarde.” [p. 18]


“As garotas soluçavam baixinho e, enquanto Ichi olhava para o ideograma de “mãe”, que também fazia parte do ideograma de “mar”, em sua mente ela viu as ama, de corpos nus ainda mais pálidos do que os golfinhos, nadando juntas no mar iluminado pela luz alva do sol.” [p. 23]


“O que importava no momento era apresentar Ichi ao velho negociante. Para uma jovem prostituta, ter um octogenário como primeiro cliente era uma dádiva. Um homem mais velho que não forçasse uma prostituta na primeira vez era um parceiro enviado dos céus. A lembrança de uma primeira vez sem pressa, sem brutalidade, terna, se transformaria em uma luz em meio ao mar de sofrimento que ela atravessaria no futuro. Um velho assim era uma bênção. Mas como fazer Ichi compreender isso?” [p. 55]


“Enquanto ouvia, Ichi pensava na primavera vindoura. Desde que chegou ali, ela não conseguia pensar no amanhã. Não há um amanhã que possa trazer mais liberdade do que se tem hoje. Como estará sua vida nessa época? Ela fechou os olhos. Sentia que era arrastada para algum lugar. O amanhã estava em algum lugar adiante. O próximo ano, ainda mais longe.” [p. 94]



“Se as garotas que foram vendidas tivessem permanecido no interior, provavelmente passariam o resto de suas vidas sem escrever. Sem se preocupar em encontrar palavras que descrevessem as flores que observavam. Flores seriam flores. Pássaros, apenas pássaros. Árvores, apenas árvores. Uma existência à qual não seria necessário acrescentar mais palavras. Um mundo de certa forma sem erros, mas também sem sutilezas, sabor e profundidade.” [p. 156]

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